Cinco anos já se passaram ou quase isso. Mas novembro de 2011 ainda está vivo na memória dos moradores do Recreio. Basta uma pequena enquete e soltar a pergunta que todos lembrarão:
_”Lembra de quando foram presos pai e filho numa cobertura da Guilherme de Almeida com 108 pés de maconha ?”
Discussões à parte sobre se é legal ou ilegal ,se é imoral, se é correto, se libera ou não libera, uma pessoa em especial trouxe tudo à tona dessa história. O protagonista, Gustavo Rossi, 36 anos, acaba de lançar um romance inspirado em tudo que viveu naquele período com esse pesadelo. Um sonho ruim que poderia fazer qualquer um cair em depressão. Preso em flagrante por policiais de São Cristóvão, o jornalista, historiador e tradutor lançou esse mês “Jardim em Chamas”, ficção pra lá de real na cabeça do autor que foi preso junto com seu pai, engenheiro do ITA, na época com 67 anos e 108 pés de maconha produzidas e cultivadas por ambos para consumo próprio. O pai, acaba de falecer. Os 3 meses que ficaram encarcerados em Bangu 8 pareceram 30 anos. Humilhados e deixados de lado pelo poder público e alguns membros da família foram uma experiência negativa, mas fundamental para o pontapé inicial no livro, que tem mais de 500 páginas e acaba de ser lançado pela editora Chiado. Preconceito, perda do emprego de assessor de imprensa numa multinacional, Gustavo teve que deixar o bairro, foi para a Barra, e seu pai , para outro Estado, Campinas.
E com o consumo desenfreado por outras drogas lícitas, como o álcool, trazem de volta essa discussão que não tem prazo para terminar. Países como Uruguai que limita em 6 pés para consumo próprio e um certo limite no THC da planta podem sinalizar um caminho. Na Holanda se vende em cafés e no Colorado, Estados Unidos, a venda é em farmácias. Para isso, basta uma receita. Comparativamente com outros países, o Brasil aparece em 17º lugar na lista cujas pessoas já experimentaram maconha na vida e em 15º entre os que usaram no último ano. O Canadá lidera a lista, atrás de Nova Zelândia, Itália, EUA e Reino Unido.
Nessa mesma pesquisa consta que nos EUA, a maior busca de dependentes químicos por tratamento hoje é de usuários de maconha. Dados da Nova Zelândia apontam que tem crescido o número de pessoas com transtornos psicóticos e esquizofrenia em decorrência do uso da droga. Nenhuma outra causa esquizofrenia e essa é a pior doença da psiquiatria, revela o estudo.
Cerca de 1,5 milhão de adolescentes e adultos usam maconha diariamente no Brasil, apontava o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E nesse mesmo estudo, mais de 3 milhões de adultos, com idade entre 18 e 59 anos, fumaram maconha no último ano e cerca de 8 mihões de adultos (7% dessa parcela da população) já experimentaram a droga alguma vez. Entre os usuários, o levantamento aponta três vezes mais homens. Vale refletir.
Plantar maconha em casa para não financiar bandidos tem sido um discurso cada vez mais comum entre usuários de classe média. Mas quando um engenheiro de 67 anos e de seu filho de 31 são presos com 108 pés da droga numa cobertura no Recreio a polêmica ressurge e se mantém viva: o que pode ser classificado como cultivo para uso próprio (como os dois alegaram e absolvidos) e o que pode ser caracterizado como tráfico (como a polícia vê o caso)? Vale à pena ter mudas em casa ou droga é droga? A discussão tem mobilizado usuários, especialistas no tratamento de dependentes, advogados e policiais.
No site do Senado Federal existe a discussão e pegamos trechos. Là diz que o problema, segundo especialistas, é que os critérios para determinar se a droga se destina ao consumo pessoal são subjetivos. A lei estabelece que o juiz observará a quantidade, o local e as condições da apreensão, as circunstâncias sociais e pessoais da pessoa flagrada.
A alegação do advogado de defesa na época era de que um engenheiro do ITA (trabalhava numa multinacional) ganhava bem e não tinha intenção de fazer comércio da droga. E quando se divulgou que foram apreendidos 108 pés, Gustavo argumentou que muitos eram machos e nem todas estavam em processo de consumo e aquilo dava para fumar durante o ano, sua intenção. Foi ouvido e inocentado. Mas as marcas ficaram e daí a inspiração pelo romance.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) realizou uma pesquisa custando mais de R$ 1 milhão e a metodologia ficou poconta do instituto Ipsos. Sobre a legalização da maconha no Brasil, 75% dos entrevistados se disseram contrários à proposta. Outros 11% apoiam a causa, 9% não souberam responder e 5% não responderam. Para nós do Jornal do Recreio o melhor é o debate e falar sobre um assunto que está em todas as famílias, em todas as esquinas. Muitos não querem ver, mas está aí, nas praças, nas famílias de bem, em todo o lugar, só que escondemos. Sem fazer juízos e julgamentos, o fato que nossa orla por exemplo está largada, a Praça Tim Maia tem consumo elevado e presente, sem falar em outros pontos da região, como em outras praças do bairro, como na Praça 6.
De acordo com o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor da Unifesp e um dos organizadores do levantamento, o estudo está próximo de um “plebiscito” sobre a proposta de descriminalizar o consumo da maconha no país. Falamos com o escritor e autor do livro “Jardim em Chamas”, que mesmo triste pela perda recente de seu pai e companheiro de história com continuação na página 13 :
1) Você ainda mora no Recreio?
R: Não moro mais, infelizmente. Depois do ocorrido, ficou muito difícil porque foi muito emblemático. Eu agora moro na Barra, e meu pai, estava em Campinas. Além disso, o Rio tava ficando muito caro também, com esses eventos internacionais. De 2007 a 2010 no Recreio, foram 3 anos maravilhosos, mas depois, não deu mais, por causa da privacidade que ficou exposta.
2)Antes de falar do livro, mas voltando ao assunto, do seu passado para as pessoas se situarem. Sei que é chato mas ambos foram presos com 108 pés de maconha e alguns chegaram a 1 ,70 m de altura , correto?
R)Isso. 108 pés de cannabis, alguns na varanda , sim, chegavam a esse tamanho, mas muitos não sabem que nós fazíamos uma vez por ano e tinha um diário com tudo bem explicado , com todas as datas certinhas , e foram usadas no julgamento e foi provado que era para uso próprio. Então no julgamento a acusação contra tráfico foi tirada e no fim não fomos nem julgados pelo artigo 28(O art. 28 da Lei nº 11.343/06 posse de droga para consumo pessoal). Fizeram uma conversão penal e nem fomos autuados por uso. Pagamos 12 cestas básicas para o INCA e o processo arquivado.
3) Talvez pela carga da denúncia e a emoção na ‘batida’ digamos assim, os próprios policiais fizeram julgamento prévio e deram opiniões diferentes na época, certo? Mas a curiosidade é: iria fumar tudo aquilo?
R: Sim. Mas há perdas e nem todas as plantas são fêmeas. Tinham machos também e a gente considera a flor. Elas estavam em diferentes estágios , e quando você faz 108 é natural o espanto pelo número. As flores tem que ser secas e isso se perde durante o processo. Como tinha um diário e não tinha movimentação no apartamento foi fácil provar nosso argumento, já estava tudo no livro. Não tinha nada referente à venda. Esses 1 ou 2 quiilos por ano dá menos de 100 gramas por mês, bem razoável para duas pessoas.
4)Passados quase 6 anos , como vocês enxergaram tudo isso?
R: Ficamos 3 meses presos em Bangu 8 tentando marcar julgamento. Passamos por por 3 advogados até encontrar um que realmente nos entendesse e quisesse nos ajudar. Ele conseguiu marcar até rápido. A gente foi preso dia 21 de setembro e saímos 17 de dezembro de 2010. Muita coisa mudou no mundo. Muitos estados de países desenvolvidos abriram para o consumo recreativo ou medicinal , como o Uruguai, o Colorado nos Estados Unidos, toda essa guerra contra a cannabis vai ficando meio que sem sentido, já que o mundo está olhando mais brando para os usuários. O que fica pra gente é que de nada adiantou. Foram presos duas pessoas pacíficas, não somos bandidos, minha imagem e de meu pai saíram arranhadas e ficou aprovado que era para consumo próprio.


Bom, você não está dando dinheiro para o tráfico, tirando lucro desse império e consequentemente os enfraquece. Segundo, não vou ter contato com esse povo, não expondo a mim e minha família. Isso parece bobagem, mas faz diferença. E terceiro, não compraria um produto ruim, misturado, de baixa qualidade, impuro, e tendo esse componente medicinal, que é o que muitos procuram também depois do lazer. Quanto aos bons costumes, temos que contextualizar o assunto. No passado, o divórcio era visto como um mal à sociedade e aos bons costumes. Tempos atrás, mais ainda, os escravos eram imorais para um branco ter uma relação com um ser de cor negra, hoje, isso é insano de se conceber. É por aí que eu penso sobre esses tabus. E vai acontecer isso com cannabis. Vejo com naturalidade que através da história esse tema muda a forma de encarar e o raciocínio sobre o assunto. Ninguém se baseia no lado científico. O ser humano tem essa mania de controlar o outro. Olha, parto do princípio que essas pessoas usuárias estão fazendo mal a elas, se for comprovado que fez mal a outras pessoas, que respondam por isso, simples assim.
5) Mas isso vira caso de saúde pública já que ganhamos milhões de dependentes?
R: Vai continuar na minoria, você vê isso nos países ocidentais aonde é permitido isso?
6)Olha, isso tem a ver com cultura também, condição sócio-econômica, há um impacto do ponto de vista de saúde pública, então você é favor ao controle, né?
R: Não faço objeção. O carro não é o criminoso, e sim, aquele que o conduz. Não existem leis que proíbem o consumo de bebidas alcoólicas e depois dirigir? Que façam isso com a cannabis. Simples assim. Tem gente que é responsável, tem gente que não é, independente do que esteja usando.
7)Como surgiu a ideia de escrever o livro?
R: A inspiração foi a partir da prisão mesmo. Sempre quis ser escritor, sempre quis escrever um livro, mas ainda não tinha uma história, não tinha um tema específico. Queria escrever um livro sobre o sistema. Na prisão tive a ideia, caiu no meu colo. Sou jornalista e historiador e aí caiu como uma luva. A história é rica, uma experiência de ter vivido ataques da mídia, viver com milicianos, fraudadores de banco e outros tipos de criminosos na cadeia. O sistema carcerário não socializa ninguém e dá a mínima para você e eu ali com meu pai. Morei nos Estados Unidos por 5 anos, e fui à Holanda e ao Uruguai colhendo esse material até virar o livro. É um romance. Uma história baseada em fatos reais. São muitos nomes que preferi trocar. O morro do Alemão virou morro do Belga e lula eu chamo de siri. Portanto, uma ficção. Demorei 2 anos e meio e são mais de 500 páginas, com bastante material e rico.
8) E o título?
R: Minha mãe queria que fosse Jardim Secreto. Só que eu achava meio bobo e pensando, poxa, a plantação foi posta em chamas. Aí pensei na economia, no mundo indo pro buraco, capitalismo sugando o meio ambiente, sugando as riquezas do solo, colocando a economia em chamas,… o ar está tóxico, a vida urbana caótica, aí, pensei em “Jardim em Chamas”. Fiz uma analogia do meu jardim de cannabis em chamas , fazendo uma alusão com o mundo em chamas. O livro fala sobre esses assuntos.



Na sinopse do livro conta que ‘Jardim em Chamas’ não é apenas mais um livro sobre a cannabis, mas um romance que descreve um mundo que está em chamas e mesmo assim com grande voracidade, a sociedade ainda empenha uma guerra contra essa planta, que traduz-se em opressão contra seres humanos, o fortalecimento do crime organizado, a consequente militarização da sociedade e o total repúdio ao potencial industrial, medicinal e econômico da cannabis que por si só poderia ser a solução para tantas crises ambientais, financeiras e sociais, as quais todos somos confrontados. Nesse romance sobre um mundo em chamas e cada vez mais totalitário, Togz e Frankz lutam por suas liberdades de dentro de um presídio de segurança máxima, na cidade do Rio de Janeiro, por terem cultivado a cannabis e logo aprendem que são eles que devem provar suas inocências e não o estado provar que são culpados. A inversão de um suposto direito democrático. Presenciam também o poder alienante que a grande mídia rege sobre a vida das pessoas e a inquietante e aterrorizante intromissão do estado na privacidade dos cidadãos, tanta vezes repetidas na história.
O Jornal do Recreio decidiu colocar o assunto na mesa para uma discussão aberta de ideias e quebrar paradigmas. Surgiu depois de sair uma nota na coluna do colega “Ancelmo Gois” de O Globo falando sobre o livro e fomos apurar a história. Mês passado o escritor Gustavo Rossi perdeu seu companheiro de vida e coadjuvante nessa história, seu pai.





