Ele já vê o Rio de cima há mais de duas décadas. Esse ângulo peculiar da cidade já até o fez publicar um livro sobre o assunto “Memória na Nuvens – Rio Visto de Cima”, pela editora Globo, com fotos produzidas pelo repórter aéreo mais famoso do Rio que agora ganhou um rosto. Genílson Araújo durante muitos anos informou ao público carioca tudo sobre o trânsito e muito mais, mas apenas pelas ondas da rádio CBN e no sistema Globo de Rádio que desde o mês passado passou a mostrar o seu rosto simpático nas manhãs da TV Globo, com flashes ao vivo para o Bom Dia Rio. Quando os fatos e a importância pedem isso pode até se estender pela programação da emissora. No dia em que marcamos uma rápida conversa ele pediu para chegarmos às 7H 30, horário do pouso programado, mas chegou às 8 H 11 devido a um acidente na Ponte Rio Niterói sem grandes proporções mas por causa de uma operação mal sucedida dos agentes da concessionária, Niterói havia parado por completo.
São acidentes, flagrantes , registros de olhos atentos ao que acontece lá de cima. Diz que fica tão concentrado que sequer lembra que está numa aeronave e voou por muitos anos sem porta para fotografar melhor. Na época, o modelo era um Robson 22 que mais parece um Fusca com um pirulito em cima. E desde seu primeiro teste, seu primeiro voo na função, nunca sentiu medo ou receio de algo pior. Nem fazia tanta questão, mas um teste sem grandes esperanças foi o pontapé na função. Não parou mais. Numa mão, o microfone , na outra a inseparável máquina fotográfica modelo Canon, sua preferida, que lá no início de sua carreira, Genílson Araújo acharia que seria sua única companheira. Policial civil aposentado, repórter , ainda arranja alegria e dedicação para ensinar, passar seus conhecimentos aos futuros jornalistas da Estácio de Sá. Genílson é alegria em pessoa, por onde passa dispara sorrisos, bom humor e conta suas histórias como se fossem a primeira vez, talvez esse seja seu segredo de seguir em frente. Hoje, voando num helicóptero modelo Esquilo já foi nossa capa do Jornal do Recreio em 2011. Na época, saía da heliporto da Heli-Rio, no Recreio. Hoje, sai de Jacarepaguá todas as manhãs com o cinegrafista Assis para informar o que acontece no caótico trânsito do Rio, anota pautas futuras para a emissora e segue seu dia no complicado trânsito, de moto, porque não é bobo. Segue:
1) Você ficou duas décadas falando para um público que não te via e agora aquela voz que informava o trânsito, tem um rosto? Sentiu diferença?
R: É verdade…(pensativo) O jornalista não é artista. Agora, a visibilidade é realmente muito maior. Mas o que acho interessante era a surpresa das pessoas em conhecer aquele que já falava com elas. Aí falo para essas pessoas quando me abordam agora que ‘aquela pessoa’ tem um rosto. Vejo mais como um reconhecimento pelos serviços prestados, pelo que já fazia antes. Resumindo, vem da longa trajetória e não porque surgi na televisão.
2)Como surgiu o convite?
R: Foi uma ideia da editoria Rio e eles estavam querendo dar uma personalizada no GloboCop. O Bom Dia Rio é um jornal local, que pega toda região metropolitana e todos os municípios do Estado e trabalha em parceria com as TVs locais. Eu na hora, falei: ‘Tô dentro e pensei, caramba, vou poder fazer meu trabalho com imagens…’ Antes se fosse falar sobre uma batida, uma colisão, teria que descrever o estado do carro, como ficou, a gravidade, descrever como ficou amassada a lataria e tudo mais. Agora, a própria imagem já diz isso. Fantástico né?




3) Sua simpatia se estende no seu ambiente de trabalho. Vi que deixou saudades na rádio?
R:21 anos de CBN né..? Foi uma homenagem que fizeram. Fiquei muito feliz. Trabalhei na 98 FM, na Globo AM..
4) São linguagens diferentes e você se comunicava com desenvoltura com textos e formas distintas…
R: Isso. Falava do mesmo assunto, mas de formas diferentes. Bom, por outro lado, quando você leva em consideração que a tevê é filha do rádio, nessa questão do discurso curto, conciso, mas com a grande vantagem da imagem. Antigamente eu tinha que dizer: “Olha os dois ônibus bateram, um ficou com a parte traseira completamente destruída que bateu na traseira do outro, com dois párabrisas quebrados, um párachoque também..” Hoje eu falo: ”Olha só o que vocês estão vendo nessa colisão, destruição total, mas sem feridos. O camarada tá vendo tudo…Para mim, foi maravilhoso!
5)Você de tanto voar deve ter mais horas de voo que muito piloto por ai, sabe pilotar?
R: Eu devo estar com umas 25 mil horas de voo…Já sei. Aprendi a forma empírica, né, olhando….Houve um tempo que eu quis fazer o curso há muitos anos atrás…. Cheguei a voar…Todo o princípio teórico do voo em si , eu sei. Cheguei a tirar a carteira de PP(piloto privado) mas não cheguei a concluir o curso prático, mas tenho uma baita noção. Voei em Robson 22, 44, H300, H500, Jet Ranger, hoje, na aeronave Esquilo.
6) Qual você mais gostou? Digo conforto, qualidade de voo?
R: De todos, o Jet Ranger.. Mais silencioso, mas o Esquilo é imbatível, máquina fabulosa.
7)Qual notícia que você adoraria dar pela manhã sobre o trânsito?
R: É que as pessoas tenham um metrô de qualidade, um VLT de muita qualidade também. A solução do Rio está nos trilhos. Não adianta ampliar vias, fomentar a aquisição de viaturas, Com isso tudo as pessoas deixariam seus carros em casa, estariam lendo um jornal, uma revista , um livro em vez de estar dirigindo. Perdem um tempo precioso num congestionamento.
8)Qual notícia que você adoraria dar pela manhã sobre o trânsito?
R: É que as pessoas tenham um metrô de qualidade, um VLT de muita qualidade também. A solução do Rio está nos trilhos. Não adianta ampliar vias, fomentar a aquisição de viaturas, Com isso tudo as pessoas deixariam seus carros em casa, estariam lendo um jornal, uma revista , um livro em vez de estar dirigindo. Perdem um tempo precioso num congestionamento.
Não adianta ampliar vias, fomentar a aquisição de viaturas, isso não é a solução. Está tudo pior, mesmo. Ao longo dos 25 anos o trânsito evoluiu para pior. Não consigo vislumbrar a curto prazo uma solução sem ser a dos trilhos. Tem que ter metrô, metrô de superfície, VLT(Veículo Leve Sobre Trilhos) como esse na zona portuária.Se você pegar a pessoa que mora no Recreio, que leva uma hora, duas para chegar à zona sul, quanto tempo ela não perdeu ao longo de 1 ano atrás de um volante sem fazer nada?
9) Você acha que a criação do segundo elevado, a implantação do BRT nas Américas e o Metrô vão melhorar efetivamente o trânsito na região?
R: Sim, mas não resolve por completo, como falei antes. Estão no caminho. O BRT resolveu a vida de quem já pegava o ônibus. O camarada sai de Santa Cruz, Campo Grande para a Barra, ele passa menos tempo dentro de uma condução, com mais qualidade e conforto, ar condicionado e tudo mais. Agora, no trânsito, tenho minhas dúvidas se o cara de Campo Grande, deixa o carro dele na garagem ainda para pegar esse mesmo BRT. Não vejo redução da frota. Já com o Metrô , isso pode acontecer para o morador da Barra da Tijuca. Sou meio cético quanto a isso. Depois que passarem as Olimpíadas, vai cai nossa ficha. Ficamos muito tempo sem investimento no setor e a linha 4 só veio até a Barra agora , né? Olha quanto tempo ficamos sem investimento no setor desde o término da Linha e ampliação mentirosa da linha 1. É uma obra cara, mas necessária e a Copa mostrou que dinheiro tem.
As cortinas vão se fechar e quanto tempo mais a gente leva para pensar e resolver o problema? O que motivou foram os eventos.
10) Você ainda dá aulas ?
R: Sim, na Estácio de Sá há 17 anos. Já dei na ESPM, ….
11) Não sei como arranja tempo, mas tem prazer em ensinar e como é o jovem hoje que escolhe a carreira de jornalismo?
R: Nós somos um país com mais de 200 milhões de habitantes, desses 200, quantos leitores tem, não sabemos. A informação nunca foi tão importante. Quando falamos que temos a segunda tela(tablets, celulares e afins), redes sociais, o papel do jornalista é fundamental para que se haja um filtro e cheguem a elas com uma questão informativa, na questão de veracidade dos fatos, inclusive , se é ou não um texto solto de cada um. Hoje em dia, você pega um jornal, dependendo do seu grau de instrução, você vai fazer uma filtragem natural, mas nas redes sociais, isso se faz mais necessário. Vai fazer muito mais. Olha, sou a favor do diploma….A nossa diferença é no ‘trato’ da informação, a importância do jornalista para a comunicação social.
12)O que diz para os jovens e futuros jornalistas sobre uma profissão que está meio que em baixa, com jornais fechando e TV perdendo audiência?
R: Muita gente chega muito novinho à faculdade. Há aquelas que vão se encontrar ao longo curso, os que já sabem o que querem, mas tem também aqueles que vão mudar lá na frente mas o curso superior foi importante para ele abrir os horizontes da vida. Como toda profissão, tem a ralação, os descontentamento com a profissão, decepções, insatisfações. Se você perguntar a um médico se queria eu o filho dele fosse médico, ele de imediato iria rechaçar na hora , falar ‘Deus me livre, plantões e etc…’ A pessoa tem uma tendência de falar que não é uma boa. Riqueza não condiz com uma carreira específica, vem para os mais sortudos e que se destacaram e ponto. É uma construção. Rico só se ganhar na mega-sena.
13) Tem noção de como é a profissão de repórter aéreo pelo mundo?
R: Em Washington você tem um museu da imprensa, Newsseum. Olha, dá orgulho de ser jornalista, um prédio gigantesco, moderno pracaramba(sic), com a história do rádio, da TV, as coberturas da s histórias americanas, tem tudo. Sabe aquela foto da menininha correndo queimada por causa da bomba de Napalm, no Vietnã. Ela ganhou o prêmio Pullitzer e tem a história do repórter que fez e a máquina que ele usou. De cara, tem um helicóptero que faz as coberturas de trânsito logo na entrada, não é legal?
14) Você já deu uma informação errada, uma ‘barriga’ daquelas?
R: Barriga.. que eu lembre não. Mas um situação engraçada, sim. Nem tudo que aparenta ser, é. Uma vez eu estava voando e vi um acidente grave. O camarada estava parado , deitadinho sem se
mexer. Ninguém chegava perto dele. E já percebi que quando uma pessoa está ferida, normalmente sempre tem alguém do lado, amparando, tentando tranquilizar…Aquele sujeito estava largado. Eu já abri o informativo dizendo que tinha ocorrido uma acidente e a pessoa lamentavelmente havia falecido. De repente, o camarada se mexeu. Me dei mal, mas tive tempo de corrigir.
15) Lembro da última vez que conversamos que você havia dito que já perdeu muita coisa lá em cima...
R: Óculos, dinheiro, caneta, bloquinho.. um comandante anterior , o Pedro Leal perdeu a carteira com dinheiro, cartão de crédito, documento, com tudo…Já saiu voando jornal, já perdi um receptor, porque voava sem porta para fotografar.. Caiu em cima de um carro. Mas pagamos o conserto.
16) Você é um dos poucos no jornalismo que admite seu time de coração, no caso o Vasco. Apesar de quase 1 ano invicto é a terceira vez que disputa um séria B, e os estádios tem ficado cada vez mais vazios pelo Brasil inteiro, como Vê isso?
R: Uma paixão, cada vez mais presente na vida das pessoas. O problema é a gestão. Falta profissionalismo na direção. A sorte desses caras é que a paixão não muda e o brasileiro não ‘comprou’ outro esporte, não perdeu o interesse pelo esporte. Quantos produtos tem tantos consumidores ávidos para o consumo imediato, uma camisa nova, um jogo, um souvenir… Isso é paixão, não se explica.
17) Um dos grandes perigos da aviação hoje são os pássaros que batem com uma certa
frequência nas aeronaves, já passou algum susto desse tipo, aliás sendo Vasco e ser abalroado por um Urubu incomoda né?
R:(risos)verdade….Um urubu uma vez bateu em nossa aeronave e tivemos que voltar rapidamente porque não sabíamos a extensão do estrago. Foi na parte superior do helicóptero. A ave ficou presa. Aconteceu na praia de Botafogo, perto do Pão de Açúcar. Ali tem muitas térmicas eles adoram. Outra vez, foi uma gaivota que bateu na popa,na calda da aeronave. Estava sobrevoando a Ponte e de noite. Foi um susto. Perigosíssimo. Tivemos que pousar rapidamente ali mesmo, mas sem sustos maiores graças a Deus!(risos) .




