A fala é pausada e o tom é baixo. O filho de um ex-craque do Flamengo e ex-técnico do clube até o mês passado, Jayme de Almeida recebeu nossa equipe para uma conversa divertida na área de lazer num confortável e tradicional condomínio da Barra da Tijuca. Avesso a automóvel, sua conta bancária ainda é na agência do Bradesco que atende aos funcionários do clube da Gávea. Nascido e criado no Leblon, Jayme de Almeida se mudou para cá cedo no início da década de 1980 e não saiu mais. Lembra do tempo em que a Barra tinha clima interiorano, o que o motivou a mudar com sua família para cá. Ídolo entre os rubro-negros conquistou a torcida adversária após ser demitido de forma injusta e indelicada pela atual diretoria que não aceitou a saída precoce da Taça Libertadores e o início ruim no campeonato brasileiro. Educado e os muitos anos no clube não foram suficientes para uma despedida digna de um ídolo que tem raízes fortes no Flamengo e que tantas glórias trouxe como jogador e treinador. Em apenas 8 meses no cargo, conquistou a difícil Copa do Brasil derrotando os maiores clubes do país e ainda levou o campeonato carioca. Ao que parece não foram suficientes para sua permanência e ainda ficou sabendo de sua demissão pela imprensa quando estava de folga, na praia. No momento, avalia propostas de outros clubes e acha que ainda pode acrescentar ao futebol brasileiro. Veja que conversa divertida com Jayme de Almeida:
1) Você mora na Barra há quartos anos??
R: Desde 1986 quando voltei de Portugal.
Comprei esse aqui ainda na planta, em 1977. Aqui na Barra tinha aquele prédio redondo, o Nova Ipanema e o Novo Leblon. Eu tava indo pra São Paulo e queria investir. Não tinha nem o Barrashopping. Era só areal e uma pista única. Eu não andava por aqui. Vendi as ações do telefone para juntar na compra.
2)Viu toda a transformação pro aqui não foi? O que está melhor e o que está pior?
R: Peguei a transformação toda. Agora, o trânsito piorou muito. Ir para Zona Sul hoje é muito difícil. É muito carro e o transporte não acompanhou. E acho que a cultura de quem mora aqui não é de transporte de massa. É a do carro novo , não tem jeito. Minha mãe ainda mora no Leblon e é o ônibus do condomínio que me leva. Vou lendo um livro numa boa.
3) Garoto do Leblon?
R: Pois é. Tô sempre lá. Joguei na areia, no Royal. Joguei contra o Junior na praia , apesar de mais novo. A gente jogava nos times de cima por que éramos bons de bola. Comecei cedo, com uns 16. Me davam a maior mordomia. Proteção. O jogo era duro. Torcida em volta com 11 na linha. Eu era meio campo.
4) Como foi parar no Flamengo?
R: Era do lado de casa. Um amigo meu, o Leo Salles, do Columbia, me chamou para jogar no salão do Flamengo. Foi até campeão de juniores comigo . Eu já tinha a história do meu pai em casa. Eu fazia já faculdade, queria ser médico. Do salão, o Sr. Bria que jogava com meu pai , me viu e me chamou pro campo. Nem chuteira eu tinha. Fiquei. Só levei a sério com 17 anos. Estudava no Pedro Alvares Cabral, em Copabacana. Quando acabei fui ser profissional.
5) O que foi mais difícil: ser técnico ou jogador do Flamengo?
R: Sem dúvidas, ser técnico. A responsabilidade é muito maior. Em relação ao sentimento, foi uma experiência fantástica. Só tenho carinho pela instituição. A torcida sempre me tratou com maior carinho. A forma com que sai ou não, mudou nada , só me aproximou mais com as outras torcidas. Eu não gosto muito de carro. Detesto. Eu gosto é de andar. As pessoas me param toda a hora. Ando no ônibus do condomínio. Motorista de táxi conhece você mais do que nós mesmos. Eles buzinam o tempo todo e ainda me convidam para os times deles. Teve até um senhor que me abraçou na rua. Ele disse que tinha muito orgulho de mim, da minha postura. Ele foi remador do clube. Acho eu seu fosse aquele treinador marrrento, fechado , a relação seria diferente.
6)Vai continuar a carreira?
R:Eu sempre fui treinador. Trabalhei no Paraná, no Japão, no CFZ, em Vitória. Fui auxiliar do Wanderlei, do Junior. No CFZ foi gerente também. No Paraná, trabalhei no Irati. Eu parei de jogar bola, me formei em Educação Física e sempre atuei na área.
7) E quanto tempo foi essa passagem?
R:Desde 2010 com o Wanderley. Era auxiliar . Mas antes, 1978 até 1982, nas categorias de base. Fui preparador físico, auxiliar, fiz um monte de coisas. Trabalhei com o Seu Neca no amador e aprendi muito com ele.
8) O que tá achando da seleção?
R: Tá no caminho certo. O material humano é esse mesmo. O Felipão pegou o trem já no trilho. O trabalho pior ficou com o Mano.
9) Você teve algum problema com o Mano?
R: De maneira alguma. Ele foi muito educado comigo, sempre.
10) Mas a declaração dele após a sua saída dizendo “nada como um dia após o outro “ foi dirigido a você?
R: Não acredito . Acho que foi para o Pelaipe. Tive uma relação muito boa e cordial com o Mano Menezes quando fui auxiliar dele. Ele foi demitido e e eu fui ficando, Os resultados vieram e fui efetivado, normal.
11)Chamaria algum jogador diferente do que tá na lista?
R: A lista é essa mesmo, mas descobri esse jogador Fernandinho do Chelsea. Ele é fantástico. Bom passe, marca bem, ataca e chuta bem. Que jogador maravilhoso!
12) O que o Jayme vai fazer a partir de agora, seguir a carreira de treinador?
R: Vou sim, meu empresário é que está vendo isso. Preciso me encaixar logo para não ficar com aquela marca de treinador só de um clube.
13)Você viu o primeiro jogo sem seu comando;/(Flax são Paulo) O que achou?E o de ontem Fla e Bahia?
R: O do São Paulo me preparei para ver ao vivo , mas só assisti no dia seguinte o VT. Estava com amigos comendo uma rabada e não deu tempo. Mas não mudou muito não. O Nei Franco vaio poder dar a cara dele com a pausa para Copa.
14) Algum jogador e te ligou?
R: Muitos. Teve jogador que só ligou uma semana depois por vergonha, você acredita? Nem eles sabiam. Foi tudo muito rápido.
15) E você foi muito criticado com a insistência no Carlos Eduardo….
R: E continuo achando que com ele a bola fazia uma ligação melhor da zaga com o ataque. A bola ficava mais no nosso pé. Ele distribuía melhor o jogo. Mas cheguei a falar com ele que os fatos não corroboravam em favor dele. Até aquele lance do campeonato carioca. Ele me disse que achou que o goleiro ia mesmo pegar a bola. E nós no banco também. Aí veio o Fantástico e fez aquela história toda….E a saída do Elias também foi crucial.
16) Tem jogador atuando só coma camisa?
R: Olha, não vou falar em nome porque é deselegante da minha parte. Mas falta comprometimento de alguns ali que jogam só com o talento que ganharam de Deus. Mas se esquecem da parte física. O futebol é hoje é muito físico, exige muito do jogador. E uma correria só e tem que se cuidar.
Não é novidade para ninguém saber quem treina , quem se cuida e quem exagera na noite.
17)Morou no Japão, quando trabalhou no Kashima. Foi difícil morar num país com uma cultura muito diferente. Passou por alguma situação engraçada?
R: A educação e o respeito são coisas que você não acredita que são importantes para o funcionamento de uma sociedade. Uma vez ,minha esposa esqueceu uma garrafa de refrigerantes no supermercado. Lá no Japão tínhamos um intérprete para atender as famílias brasileiras e como éramos muitos, decidimos fazer compras sem ele. Ela esqueceu as garrafas no caixa. Fui trabalhar e no dia seguinte minha esposa foi lá. Explicou ao gerente o que aconteceu. Ele abriu uma porta e falou para ela procurar na sala . Tinha até TV!!Ele não perguntou se era só isso . Não fiou vendo se ela ia levar outra coisa. Acreditou na palavra e pronto. Não é bacana. Falta um pouco disso aqui. As pessoas precisam ser mais honestas, principalmente os governantes.
18) Sei que você vai na Toca da Traíra as vezes, tem algum cantinho especial para ir, um restaurante, praia?
R:É verdade..Como você sabe? Agora tenho mais tempo. Ia nas segundas por causa da folga. Aliás, vou retomar minha pelada de segunda. No Recreio, gostava de ir na Mineira. Era pertinho do Ninho do Urubu e adora a comida mineira. Dava uma esticada na Prainha e no canto do Recreio. Como é bonito aquele lugar.











