Em no máximo 150 anos os jacarés vão sumir das nossas vistas em todo o complexo lagunar de Jacarepaguá. Parece muito, mas levando-se em conta que um animal vive em média 70 anos vão durar apenas duas gerações. Quem disse isso é especialista no assunto, RICARDO FREITAS FILHO, biólogo com doutorado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro no assunto e único especialista em jacarés no estado. Morador da região, o nosso “Dundee” do Recreio ou Dr. Jacaré
é meio esquecido pelas autoridades do setor. Quem conhece a região, basta passar pelos pontos de visualização que encontramos dezenas de pessoas que passam e ficam admirando os animais tomando seu pacato banho de sol, isso porque precisam equilibrar sua temperatura e fazer sua digestão, já que são animais de hábitos noturnos como todo bom predador. Estivemos em alguns pontos de onde podemos avistá-los, na Hermes de Lima, na ponte do Canal das Taxas e na Gilka Machado. Ali, podemos ver que quem passa fica minutos admirando os répteis, parentes longínquos dos dinossauros, como num zoológico a céu aberto. Cada um tem uma história para contar, umas fantasiosas, outras difíceis de acreditar, outras até tem seu fundo de verdade. Um, dizia que cerca de 30 animais apareceram mortos em apenas uma semana! Outro cravava que alguns cachorros da região estavam sem um uma das patas, porque curiosos, foram até a beira do canal fazer-sei-la-o-quê e NHAC! foi abocanhado pelo caçador jacaré-de-papo-amarelo, mais agressivo que os aligatores da Flórida e que podem chegar a quase 3 metros de comprimento.
Conversamos com RICARDO mês passado e muito atencioso nos explicou as condições em que vivem, o descaso das autoridades e a falta de interesse do poder público. Fomos bem perto deles. Basta nossa presença na margem para eles saírem em disparada. Um ou outro fica de espreita e faz uns sussurros de dar medo.
Sem nenhum apoio ou verba Ricardo se mantém firme e forte, catalogando, monitorando e acompanhando o dia a dia dos animais. Hoje, vive de doações ou pequenos trabalhos, principalmente quando um empreendimento imobiliário decide subir um edifício e retirar os animais para realocá-los em outros ambientes mais adequados e RICARDO é chamado. Mas isso é muito pouco para quem tem mais interesse em vê-los bem. Recentemente postou um vídeo onde desabafa sobre a caça ilegal e os maus tratos feitos pelo homem. Alguns animais foram caçados e suas bocas amarradas pelo bel prazer da caça e pasmem, para consumo. Isso mesmo. Já existe um grupo clandestino apaixonado por carnes exóticas e se reúne num quiosque da orla para degustar tão nobre iguaria, o jacaré.
Assim como os ‘Gaytor Boys’ do canal a cabo Animal Planet, RICARDO laça e pega no braço com as mesmas técnicas utilizadas no programa e nos conta agora a atual situação:
1) Percebi que olhando eles ao sol, as barrigas parecem estufadas, isso é sinal de doença e fartura?
R: Isso a gente ainda está avaliando. Existem diversas teorias que apontam o porquê disso. Apesar do estufamento na região abdominal, na calda isso não ocorre. E animal bem alimentado a gente vê pela calda. Portanto, não parece ser saudável. A alimentação não sendo condizente com um habitat natural nos leva a crer que esses alimentos jogados pela população com muitos hormônios e conservantes, e isso, prejudica o animal.
2) Mas as condições da lagoa também não ajudam tamanha a poluição?
R: Pra quem? Só se for para o ser humano. Pra eles o que os leva a ficar ali é a água quente e eles se adaptam a essa poluição facilmente. O organismo não sofre. Sofre , sim, com esses alimentos jogados cheios de conservantes para manterem mais tempo na geladeira. Olha, quando a gente vai consumir, a gente ferve, frita, cozinha, um processo que quebra o conservante. Quando jogam para ele vai esse conjunto bem prejudicial a assimilação do organismo do animal.
3) Então daqui a 30 anos eles terão doenças como câncer?
R: Eu não diria assim, ou qualquer doença patogênica nesse sentido, mas uma espécie que tem um sistema imunológico único, um dinossauro vivo se adapta a condições extremas. Nesses 16 anos de monitoramento, temos cerca de 600 animais marcados e monitorados na região. Pelas coletas que fizemos, nenhum jacaré apresentou qualquer tipo de patologia ou síndrome que pudesse prejudicá-lo. O pior ‘câncer’ para eles é o homem. Agora, detectamos que a temperatura excessiva da água, da matéria orgânica jogada, do esgoto in natura nas margens junto com supressão vegetal das áreas(invasão do homem com as construções) do pouco que sobrou para eles viverem, tem acabado com a espécie lentamente. O fato de você ver esse montão aqui não quer dizer que o número é alto.
4) Mas estou vendo aqui pelo menos uns 30 !
R: Correto. Mas imagine que se esses 30 fossem 100 porque não estamos vendo todos aqui. E eles fossem colocados num gramado de futebol, espalhados. Não chamariam tanta atenção, mas imagine colocá-los na pequena área, não vão parecer muitos? Eles estão sendo é encurralados! Agora, esse processo de putrefação do alimento provoca um chorume químico, encharcando os ovos, contaminando as ninhados. E quando nascem, se conseguirem , nascem defeituosos, podem ter deformidades físicas, como membros diferentes, coluna e até a variação sexual dos ovos. No rabo deles você poderá ver que tem uma marca na calda feita por mim.
5) O método de captura é igual vemos na TV?
R: Isso aí, sem tirar nem por.
Mas se bobear ele pega. Eu mesmo perdi parte do dedo.(foto ao lado). É mais jeito que força. Apesar do giro da morte (ele gira para se soltar ou na caça asfixiar a presa)
6) E um parque aos moldes da Flórida seria viável?
R: Isso é sonho antigo meu. As pessoas poderiam comprar os alimentos para poderem dar aos jacarés com supervisionamento. Esse recurso serviria para alimentar o parque e automaticamente a região ganharia no turismo. Não é difícil se tiver intensão, mas estamos no paísDr. RicardoFreitas Filho ( UERJ – Doutor em Ecologia e Evolução) da burocracia né?
Dr. RicardoFreitas Filho ( UERJ – Doutor em Ecologia e Evolução)





